• Letícia Kawano-Dourado

Como atravessei uma enorme crise emocional na residência de Clínica Médica

Compartilhando minhas dificuldades e amadurecimento progressivo que foram compondo a profissional que hoje sou.




O curso de Medicina não é um curso simples do ponto de vista emocional. Além dos desafios habituais de qualquer aquisição de novo conhecimento (ter que lidar com a desconfortável sensação de não saber, se ver no início da curva de aprendizado, eventualmente falhar, etc.) há um "algo a mais" na Medicina: o fato de que, a partir do ciclo clínico, esse aprendizado se passa no contexto do sofrimento de pessoas doentes. Ou seja, tendo a morte bem próxima de nós.





Muito se discute hoje em dia a respeito da necessidade na Medicina de oferecer espaço de continência e acolhimento emocional para os alunos. No entanto, não há conteúdo curricular definido nesse sentido, e cada escola médica faz (improvisa?) ao seu jeito. Na real, aprendemos de forma autodidata sobre essa higiene emocional, muito na dependência dos recursos psíquicos dos preceptores/professores com quem convivemos.


Bom, mas vamos à minha história. Depois que me formei em Medicina, no ano de 2003, entrei na residência de Clínica Médica, no Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), no mesmo ano. O HBDF é um hospital público terciário que recebe casos mais complexos das Centro-Oeste e Nordeste do Brasil.


Olhando retrospectivamente, eu não estava emocionalmente amadurecida o suficiente para lidar com as situações com as quais iria enfrentar na residência de clínica médica. Com 23 anos e pouca bagagem sólida sobre sofrimento, dor, perda & morte, lá fui eu admitida dentre os residentes de clínica do HBDF do ano de 2003.


O rodízio na enfermaria era particularmente difícil, pois víamos os mesmos pacientes por dias/semanas seguidas, formando vínculos e conhecendo histórias de vida enquanto oferecíamos cuidados médicos. Era muito difícil vivenciar a impotência de ver um desses pacientes deteriorar e morrer. Sentia e pensava tanta coisa..."o que eu fiz de errado?", "como não consegui interromper esse desfecho?", tantas emoções: raiva, impotência, dor da perda, somado ao cansaço da jornada de treinamento e à ansiedade de se ver ainda numa curva de aprendizado (depender do conhecimento do outro). Também surgiam reflexões sobre finitude que todas aquelas vivências proporcionavam: "o que realmente importa na vida se a morte é tão palpável e real?"


Lembro de casos dessa época até hoje, lembro dos rostinhos dos pacientes, de forma muito vívida... um deles, uma moça muito jovem, 18 anos, internada para investigar uma suspeita de infecção óssea associada a material de síntese (pinos) colocados em sua coluna. Cuidar dessa moça era um desafio emocional para mim. Ela chorava muito todos os dias por estar longe da sua família (que era do fora do DF) e sentia muita dor por conta dos pinos. E o que era pior era saber que a indicação da colocação dos pinos havia sido claramente incorreta - ela provavelmente fora vítima de uma dessas máfias de órteses/próteses que atuavam na época... aquilo era de pesar o coração.


A enfermaria de Hematologia era outro local bem difícil, onde havia internados muitos pacientes jovens (da minha idade!), com doenças graves e com potencial de instabilização alto. Quantos pacientes queridos, que me lembro do sorriso até hoje, morreram sob meus cuidados. Eu que havia escutado seus sonhos, planos, havia visto fotos de filhos pequenos, esposa... como era difícil aquilo tudo!


E o progressivo degradamento do corpo pela doença? Limitando, mutilando, deformando, impondo uma carga emocional e física pesada aos pacientes... Inevitável por vezes não se colocar no lugar dos pacientes e pensar: "Como eu lidaria com uma colostomia? Com uma paralisia? Com a deformação do abdomen por um tumor?"


Uma das minhas formas de lidar com toda essa complexidade psíquica era focar na biologia das coisas. Esquecendo o "sr. João" e me concentrando na leucemia mielóide aguda e tudo mais que precisamos saber sobre como "conter essa ameaça": diagnosticar, tratar e prever complicações do tratamento. Estudar leucemia até esgotar o assunto trazia um mínimo de sensação de potência, que confortava a R1 de clínica, que havia escolhido medicina para justamente "livrar as pessoas das doenças" (e esse é o motivo que hoje me faz fazer pesquisa, rsrsr!).


E como se não bastasse as complexidades da residência de clínica médica, há também a vida lá fora. E no meu caso, eu estava me preparando para me casar, saindo de casa para morar com meu marido e esse período se revelou um período muito ansiogênico para mim. Por questões complexas que eu só fui entender muitos anos depois, em psicanálise, minha saída de casa era um marco do envelhecer dos meus pais (significado substituto de proximidade com o morrer), era "cortar" uma relação tão conturbada e intensa com a minha mãe... Eu simplesmente não dei conta de continuar "funcionando"normalmente. Quando a crise veio chegando, na residência médica, meus primeiros sintomas foram de irritação... ficava super irritada com tudo - tolerância zero com qualquer coisa que não saía como deveria sair. Lembro-me de uma querida colega de residência, Dra. Indira Valle, me chamando a atenção para esse sintoma: "Leticia, o que está acontecendo com você? Você anda muito irritada e você não é assim"... Ela estava certa, prenúncio de uma baita crise de ansiedade com sintomas depressivos. Baita crise mesmo. Precisei ser afastada da residência (com total horror da minha parte, pois o pensamento de estar sobrecarregando meus colegas me deixava ainda pior). Mas eu simplesmente não estava conseguindo levar. Tinha crises de pânico no hospital, "do nada". Fiquei muito assustada quando tive pensamentos de morte, como se morrer fosse melhor do que viver daquele jeito... Meus colegas foram muito generosos e queridos. Externaram preocupação por mim e não me deixaram em nenhum momento eu me sentir um peso para eles. Sou para sempre grata pela generosidade deles. Na época contei com a ajuda de um antidepresssivo e um benzodiazepínico para "apagar o incêndio" emocional enquanto eu me reorganizava, e quem me medicou foi uma das assistentes da psiquiatria do próprio hospital, Dra. Dilma, uma querida.


Na época sentia vergonha de estar naquele parafuso emocional todo. Como se fosse sinal de fraqueza, de fracasso. Isso agregava um sofrimento adicional que hoje avalio como desnecessário. É querer negar nossa humanidade.

Concluí a residência de clínica médica mas nem me arrisquei a seguir o curso natural da formação médica que seria emendar uma residência de especialidade. Por vários motivos: meu corpo e mente precisavam de cuidado e o treinamento na residência é muito intenso para ser compatível com o autocuidado que eu precisava. Também o final da residência de clínica havia sido tão turbulento que eu não havia pensado qual especialidade gostaria de fazer.




Demorei exatos dois anos para voltar aos eixos. Passado o tempo, hoje posso dizer que foi um tempo de uma lagarta num casulo se transformando. Intensifiquei a psicoterapia, que me fez muito bem, e tive meu primeiro contato com técnicas meditativas. Ter adotado duas cachorrinhas também na época me fez muito bem.

Fui trabalhar como clínica geral num sistema bem light, máximo 20h por semana fazendo consultório. Em 2 anos desmamei os remédios e só após 2 anos posso dizer que estava de volta bem e mais amadurecida. Nesse amadurecimento foram muitas reflexões sobre morte, impermanência, perda, impotência, cuidar. Enfim, havia, para minha surpresa, me tornado uma médica (bem) melhor.


O que se seguiu foi que eu e meu marido decidimos vir para São Paulo para continuar nossa formação. Então, após essa pausa de 2 anos para cuidar de mim, voltei a estudar em ritmo de residência "a biologia das doenças". Passei na prova de ano adicional de Clínica Médica (residência) no Hospital das Clínicas da FMUSP e viemos para São Paulo. Na sequencia fiz pneumologia também no HC-FMUSP e meu doutorado também lá, e cá estou eu, feliz com a Medicina e com minhas escolhas. Certamente ter passado por tudo isso me deixou (muito) mais humana, compreendendo melhor a complexidade da existência psíquica permeando nossa interação com o mundo. Hoje estudo a "biologia das coisas" sem precisar negar a existência do "Sr. João". A dor da vida passou a caber - e acho fundamental "a dor da vida caber" naqueles que escolhem a Medicina. Do contrário não se consegue testemunhar a dor do outro, e em assim sendo, não se consegue cuidar do outro.





Tenho uma palavra final para deixar: precisamos ser mais gentis com nós mesmos, respeitando os tempos e necessidades do corpo. Às vezes uma pausa é fundamental para se continuar bem. Já para as Escolas de Medicina eu diria que é fundamental criar estruturas oficiais de suporte para as dores que a formação médica nos apresenta, criando espaços de elaboração de reflexões existenciais e que promovam a formação humana dos médicos. Algumas Faculdades de Medicina Norte-Americanas já tem no currículo "Humanidades Médicas": disciplinas que ligam filosofia, artes, cultura, antropologia ao saber Médico - algo fundamental, diga-se de passagem.


Sugestão de leitura para aqueles que estão na sua formação médica e, assim como eu, sentem o desafio que são as reflexões sobre sofrimento e morte no exercício de sua profissão:

- Qualquer livro da Pema Chodron: uma monja budista com uma sabedoria de Vida impressionante. A citar alguns títulos: "Quando tudo se desfaz: orientação para tempos difíceis"; "O Salto: um caminho para enfrentar as dificuldades inevitáveis", "A Beleza da Vida: a incerteza, a beleza, a felicidade".


Fora a Pema Chodron, tem a Tara Brach, a Brene Brown, Luc Ferry (aprende a viver)...tantos autores! Outro aspecto fundamental, na minha opinião, é ter um espaço apropriado de elaboração desses conteúdos existenciais pessoais, e para mim esse lugar é há 7 anos o divã psicanalítico - uma outra experiência sensacional. Para finalizar, impossível não reconhecer a importância da filosofia nesse progressivo amadurecimento emocional em relação à vida e reflexões sobre o eu no mundo.


Desejo a todos que escolheram a formação médica: boa sorte e realização na profissão! Uma profissão belíssima.


Declaração de conflitos de interesse: nenhum


As opiniões aqui veiculadas representam minha posição pessoal.


Projeto Respira Evidência por Leticia Kawano Dourado




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