• Letícia Kawano-Dourado

COVID-19, primeiro caso do coronavírus confirmado em São Paulo em 26 de fevereiro de 2020

Saibam quais são os riscos e o que podemos fazer para reduzir a chance de contaminação



O caso índice foi de um Brasileiro que passou 2 semanas na Itália agora em fevereiro. Voltou há alguns dias antes do dia 26 com sintomas respiratórios leves, mas tendo em vista sua estadia na Itália, resolveu ir ao Pronto- Socorro, onde a (doença) COVID-19 foi confirmada.


A Itália é o país Europeu com mais casos de COVID19. O que aconteceu por lá? Falha no isolamento do 1o caso hospitalar do Coronavirus (Cov19) porque o sistema de resposta à COVID19 estava desorganizado, como o Primeiro Ministro Italiano comentou.



Esse caso inaugura a doença em solo Brasileiro. Consideramos o que temos visto no restante do mundo, a capacidade de transmissão desse coronavirus, o CoV19, é alta e portanto é de se esperar que tenhamos vários casos aqui no Brasil.


É caso de pânico? Não. Porque a COVID19 vem se desenhando como infecção contagiosa mas com a maioria dos casos sendo brandos (estimativas conservadoras ~90%).

A taxas de letalidade atual (em torno de 2%) é provavelmente super-estimada tendo em vista que o denominador verdadeiro de infectados não é conhecido (reflitam comigo: só recentemente foi desenvolvido o teste para detecção do vírus, este não é amplamente disponível, o que limita seu uso aos casos hospitalares mais graves).


Adicionalmente, as mortes na China ocorreram majoritariamente em idosos (idade acima de 80 anos) e em pessoas com doenças pré-existentes. Pouquíssimas mortes em crianças. Também as morte pela COVID19 se associaram ao acesso reduzido a serviços de saúde.



Wu Z and McGoogan JM. JAMA, February 24, 2020

Ok, não é caso de pânico, mas precisamos tomar cuidados, cuidados semelhantes aos que tomamos com o vírus Influenza. O que se pode fazer para reduzir o risco de transmissão de infecções respiratórias virais no geral e da COVID19 em específico?


1. Higiene de mãos e higiene de surperfícies (estas quando possível)

Lavagem das mãos com água e sabão ou álcool 70%. Como a transmissão da COVID19 parece ser respiratória, a higiene de mãos protege a pessoa de se contaminar em superfícies onde foram depositadas gotículas contaminadas. Essas superfícies são mesas, botões de elevador, maçanetas, barras de apoio no metrô/ônibus, mesinha do avião etc


2. Etiqueta ao tossir e espirrar

Essa é uma forma de reduzir a tensão psíquica geral e também de proteger as pessoas à sua volta de se contaminarem com Cov19 ou qualquer outra infecção respiratória. "Ah, mas meu espirro é rinite": Minha resposta é: não importa. A sociedade está tensa, não faz sentido espirrar ou tossir sem cuidado em um momento desses.





3. Uso de máscaras

O uso de máscaras pode ser uma alternativa para reduzir o risco de contágio de doenças que são transmitidas pelo trato respiratório, em especial em locais de maior aglomeração e/ou maior risco. A preferência é pela máscara N95, que deve ser usada bem aderida ao rosto (dura 8h). De todo modo, uma máscara cirúrgica simples já protege de gotículas (mas não de aerossóis).


Outra indicação para o uso de máscara: se você estiver com sintomas respiratórios. Proteja as pessoas ao seu redor. Nesses caso, uma máscara cirúrgica simples basta, pois a fonte contaminante potencial é você e a máscara é para impedir a dispersão de gotículas no ar e geração de aerossóis. Use máscara em especial ao ir a clínicas e hospitais: muita gente vulnerável lá.


Aqui, chineses usando mascaras cirúgicas comuns

Máscara N95

Outras dicas menores:

4. Trate a sua rinite alérgica. Por dois motivos, primeiro para não ficar assustando a todos com espirros em um momento tenso desses, segundo por que quem tem rinite alérgica está a todo instante levando a mão à mucosa do nariz, aumentando o risco de contaminação.


5. Vacine-se para o influenza e para o pneumococo (pneumonia). Por que? Porque assim você evita riscos infecciosos adicionais que são preveníveis além de reduzir as chances de complicações em caso de gripe ou COVID19 grave (a pneumonia pneumocócica pode ser uma complicação de uma infecção viral grave, como é o caso do influenza e porque não da COVID19).


6. Sapato da rua não deve entrar dentro de casa

Seguindo o mesmo raciocínio da contaminação de superfícies por espirros e tosse, o chão pode estar contaminado, e trazendo a contaminação para o chão de dentro de casa, aumentam suas chances de levar a mão ao chão e em seguida às mucosas (olho, nariz, boca)


7. Lave o rosto

O rosto também pode ser contaminado por aerossóis dispersos no ar, sempre após ambientes cheios ou ao chegar em casa, lave o rosto.


8. Higienize seu celular

Estamos a todo instante mexendo no celular, o aparelho pode se tornar facilmente uma fonte de contaminação. Uma forma de higienizar o celular é usando swabs de álcool 70%. Faço isso há anos, diariamente, nos celulares de casa e nunca estragaram.



9. Roer unha: hora de parar

Roer unha faz com que você leve sua mão na boca em situações várias durante o dia, aumentando seu potencial de contaminação.


10. Em viagens (avião), como fazer para minimizar ao máximo o risco?

Se sua preocupação é alta, sugiro o seguinte: A. Levar luvas descartáveis para usar o banheiro. Calçar as luvas, usar o banheiro e ao sair descartar as luvas B. levar lenços de álcool 70% para higienizar o apoio de braço e a mesinha referente à sua poltrona. C. usar máscara N95. D. Trocar de poltrona se houver alguém tossindo ou espirrando nas 2-3 fileiras à sua frente/atrás/lado (ou, alternativamente, demandar que o passageiro índice use máscara simples e álcool 70% nas mãos). E. Roupa que foi usada no vôo deve ser imediatamente lavada. F. Embalar malas com capas protetoras/plásticos que podem ser retirados antes de entrar em casa/carro.


11. Evite idas ao Pronto-Socorro desnecessárias

As salas de espera e de atendimento de pronto-socorros são locais de alto risco para a transmissão de doenças respiratórias pois é para lá que pacientes sintomáticos irão. Caso haja necessidade de ir ao PS, cuidados com higiene de mãos, e outros cuidados descritos acima podem aplicar.


12. Equilibrio emocional, sono em dia - dando uma força para seu sistema imunológico

É bem documentado que o estresse emocional é fator de risco para infecções respiratórias e infecções graves. Não sabemos o impacto do estresse na COVID19, mas essa é uma intervenção que tem risco zero.


Bom, vamos acompanhando o desenrolar da COVID19 no Brasil. Caso haja novidades, faço novo post. Quer receber por email? Se cadastra então aqui no blog!


Declaração de conflitos de interesse: nenhum


As opiniões aqui veiculadas representam minha posição como médica pneumologista e pesquisadora clínica.


Projeto Respira Evidência por Leticia Kawano Dourado




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