• Letícia Kawano-Dourado

Desconstruindo mitos: mulheres emocionalmente instáveis, homens equilibrados

Isso mesmo, trata-se de um mito, não de um fato. Mito facilmente desconstruído do ponto de vista biológico e do ponto de vista sócio-cultural





Acaba de sair na Science uma perspectiva escrita pela Dra. Shansky do Laboratório de Neuroanatomia e Comportamento da Universidade de Boston, EUA, sobre a falácia da base biológica ("hormonal") para o descontrole emocional feminino que chega ao ponto de influenciar bancadas de laboratório com estudos animais

Atenção, antes de entrar no assunto propriamente dito: não estou aqui com a intenção de negar as óbvias diferenças biológicas entre homens e mulheres. Estamos aqui para falar de diferenças de cunho imaginado, fictícias, construções sócio-culturais, desprovidas de qualquer suporte a não ser a própria narrativa em si.


Isto posto, vamos lá:

É impressionante como alguns equívocos conceituais perduram gerações apesar da vasta evidência contrária. No caso de estereótipos de gênero, há uma vasta gama desses "equívocos conceituais" correntes por aí, e claro a sua perpetuação ao longo do tempo encontra suporte não só na lógica de dominação entre gêneros mas também em ideais românticos, compondo o arsenal de sedução entre sexos. Por exemplo: "Mulheres são emotivas" (que no discurso pejorativo vira instável, descontrolada). Vemos homens e mulheres (!!!) repetindo esses equívocos por aí até com um certo "charminho no olhar", como se isso envolvesse a mulher nessa aura de mistério ("as mulheres são difíceis de entender"), fator importante no jogo de sedução. Vamos agora investigar se existe base biológica para essa afirmação e o preço (alto) que nós mulheres pagamos por sustentar esses e outros equívocos conceituais.



Romantismo dando suporte a vieses de gênero


"Mulheres são complicadas e homens são simples". Será mesmo? Qual a evidência disso?


A noção de que a disposição emocional feminina é diretamente ligada aos ovários persiste até hoje. Mulheres, mas não homens, são pejorativamente descritas como emocionais, "hormonais", o que curiosamente ignora o fato documentado de que homens também possuem hormônios e instabilidades emocionais.

Em sociedade, esses estereótipos alimentam vieses explícitos e implícitos que na vida profissional, tem um baita impacto negativo, dificultando a inserção no mercado de trabalho e a ascensão na carreira da mulher prestando um desserviço não só a mulheres mas à toda sociedade.


Curiosamente, esses estereótipos chegaram até as bancadas de laboratório! No campo da neurociência, modelos animais são usados ​​para investigar os mecanismos que ligam a estrutura, a função e o comportamento do cérebro, com um objetivo de ajudar a entender doenças mentais e neurológicas. E vejam que surpreendente, projetos de pesquisa em neurociência usando modelos animais do sexo masculino são avaliados como mais consistentes do que modelos que incluem animais de ambos os sexos.




"Um pouco de conhecimento é algo perigoso"

A compreensão parcial de qualquer realidade pode levar a graves equívocos. O conhecimento de que níveis de hormônios sexuais ovarianos flutuam sua concentração ao longo do ciclo menstrual de mulheres e roedores do sexo feminino foi assumido como variável confundidora em experimentos neurocientíficos a tal ponto que a hipótese nunca havia sido investigada até 2014! A metanálise de 2014 que avaliou ~ 300 estudos em neurociência usando roedores concluiu que não havia evidência de que hormônios femininos tivessem influência em investigações neurocientíficas e o título do artigo foi "Female mice liberated for inclusion in neuroscience and biomedical research". Por outro lado se observou que se os ratinhos eram guardados em grupos ou sozinhos, isso sim impactava variabilidade: ratos do sexo masculino guardados em grupos desenvolviam uma hierarquia social e no macho alfa a concentração de testosterona poderia chegar até a 5x mais que nos subordinados. Nas fêmeas essa variação hormonal não era observada.


Ambos testosterona e estrogênio são potentes neuromoduladores e desse modo a influência de hormônios sexuais em modelos animais na neurociência é um potencial confundidor tanto em estudos envolvendo ratos do sexo masculino quanto feminino!


Do ponto de vista sócio-cultural a emotividade pejorativa atribuída às mulheres é facilmente explicada por dois fênomenos:

1. Dois pesos, duas medidas: a avaliação que fazemos da expressão emocional das mulheres é diferente da avaliação que fazemos da mesma expressão emocional dos homens. Para ilustrar esse fenômeno, menciono aqui um, de muitos estudos, evidenciando essa forma enviesada pela qual mulheres são julgadas socialmente:


"Ele está passando por um momento difícil". "Ela é emotiva e instável, afinal é muito hormônio envolvido". Lisa Feldman Barrett da Boston College em suas pesquisas sobre vieses de genero e emoçoes

Nesse estudo muito interessante observou-se que expressões de raiva, medo e tristeza são atribuídas a um evento externo quando homens a expressam ( "ele teve um dia ruim", "mas também foi pesado o que ele teve de passar") enquanto que em mulheres, as mesmas expressões são atribuídas a traços de personalidade intrínsecos ("mulheres são mais emotivas, instáveis, descontroladas, hormonais")


2. Fenômeno "Homem que é homem não chora": censura sócio-cultural da expressão emocional por homens (não da emoção em si!).



Desde muito cedo meninos aprendem que devem inibir a expressão de algumas de suas emoções pois expressá-las é sinal de fraqueza. Ora, inibir a expressão de uma emoção não a faz deixar de existir. O que vai acontecer é uma metamorfose da emoção inicial em outra mais aceita, como por exemplo, em vez de tristeza, medo, pesar, expressa-se raiva (irritação), que é mais associada a uma potência imaginária. Por tanto o fato da expressão emocional ser mais ou menos visível não muda a influência dessas emoções em tomada de decisões ou modo de se relacionar sejam em homens ou mulheres.


Resumo da ópera: Existem claras diferenças biológicas entre homens e mulheres. E existem construções sócio-culturais que se somam a essas diferenças biológicas que não passam de mitos - o mito facilmente se desconstrói quando investigado objetivamente. Esses mitos ou vieses operam como uma força contracorrente contra a mulher no âmbito profissional já que características como emotiva demais, emocionalmente instável se associam com "incapaz para cargos de liderança".


Nos faz refletir, não? Mais sobre o assunto em breve abordando outro estereótipo para lá de falso (e cafona): a alegação do fenômeno abelha-rainha para justificar a minguada ascensão feminina profissional a cargos de elite. Chega de falsos estereótipos nos atrapalhando. #TimesUp



Declaração de conflitos de interesse: nenhum


Projeto Respira Evidência por Leticia Kawano Dourado




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