• Letícia Kawano-Dourado

Liderando com o coração?

Estereótipos de gênero prejudicando a ascensão feminina


Para começar, algumas declarações de personalidades importantes:


"Eu não acho que uma mulher deva estar em qualquer trabalho do governo. Quero dizer, eu não acho não, eu tenho certeza. A razão pela qual eu afirmo isso é principalmente porque elas são erráticas e emocionais. Homens são erráticos e emocionais também, mas o ponto é que é mais provável que uma mulher seja" Richard Nixon, ex-presidente dos Estados Unidos


"Aqui está o meu dilema ... como uma mulher em uma alta posição pública ou buscando a presidência como eu estou, você tem que estar ciente de como as pessoas vão julgá-la por ser "emocional". Então falamos de um equilíbrio muito delicado - pois como você navega o que é ainda uma área nova [da mulher em cargos de liderança] - para ser você mesmo, para se expressar, para mostrar seus sentimentos, mas evitando maneiras que desencadeiem todos os aspectos negativos dos estereótipos de gênero" Hillary Clinton

Christine Lagard, na época presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI), conversando com o primeiro ministro grego Lucas Papademos em 2017

A crença de que mulheres são mais emocionais que homens é um dos estereótipos de gênero mais fortes da cultura ocidental (Shields, 2002). Em amostragens populacionais nos Estados Unidos, 90% dos entrevistados (homens e mulheres) afirmam que as mulheres são mais emocionais que homens (Gallup 2000). De fato, é uma crença geral que mulheres expressam todas as emoções mais intensamente que os homens à exceção de orgulho e raiva, emoções vistas como mais comumente expressas pelo gênero masculino. E essa maior emotividade feminina é o "estereótipo mestre" sobre o qual vários outros estereótipos se desenrolam.


Outro dado interessante de amostragens populacionais Norte-Americanas evidencia que a maioria dos homens e um terço das mulheres acreditam que a razão principal pela qual mulheres não ocupam tantos cargos de liderança quanto seria esperado é por que mulheres são muito "emocionais". Outra pesquisa mostrou que 25% dos Norte-Americanos concorda que "os homens são mais adequados para cargos políticos que as mulheres"

As teorias psicológicas mais influentes sobre Gênero & Poder têm enfatizado o papel central dos estereótipos de gênero explicando a sub-representação de mulheres em cargos de liderança (Eagly & Carli, 2007; Eagly & Karau, 2002; Heilman, 2001; Heilman & Eagly, 2008; Rudman & Glick, 2001; Rudman, Moss-Racusin, Phelan, & Nauts, 2012). Não só isso, mulheres que se comportam em não-conformidade com o estereótipo cultural vigente merecem ser punidas (Brescoll, 2016).


Ora, o estereótipo cultural vigente é que mulheres são nutridoras, acolhedoras, gentis/doces enquanto homens são assertivos, independentes, dominantes, ambiciosos, objetivos (Eagly & Karau, 2002). Adivinhem qual dos conjuntos de características descrevem o que se espera de líderes? As características associadas ao gênero masculino. E vejam, caso mulheres expressem essas características passarão a estar em não-conformidade com as expectativas do gênero feminino: e merecem punição, não aprovação.

Estamos falando de estereótipos, de preconceitos, não da realidade. É mito que mulheres sejam mais descontroladas, mais emotivas que homens - apenas há nuances de expressão entre generos, e também é verdade que algumas expressões emocionais preferencialmente masculinas são bem tóxicas para o ambiente profissional, diga-se de passagem.


Essa figura é impressionante. Da esquerda para a direita visualizamos a progressão na carreira, tendo à direita os cargos de liderança de elite. Notem como se distribuem a proporção dos gêneros feminino (azul) e masculino (preto) na entrada e à medida que se progride para cargos de elite. Retirado do relatório McKinsey de 2019 focando apenas em profissionais da Indústria da Saúde.

Como explicar as causas do funil observado na figura acima? Os estudiosos do assunto afirmam que os vieses subconscientes de gênero são uma das variáveis da equação, e certamente é uma das mais importantes.


Há uma série de experimentos mostrando os vieses operando em nível subconsciente, como por exemplo: Uma ação de um líder é avaliada por entrevistados, caso o líder seja dito ser uma mulher, naturalmente explicações sobre o lado afetivo da líder entram na avaliação, enquanto que a mesma ação sendo dita ter sido realizada por um líder do sexo masculino não recebe a interpretação emocional que as líderes femininas recebem (Brescoll 2016). É o paradigma "pensou gestor, pensou sexo masculino" (Think Manager, think male) descrito por Fischbach 2015.


E o significado subconsciente de ver mulheres como seres emocionais é vincular emotividade com descontrole emocional e portanto vincular mulheres a serem menos aptas a cargos de liderança, já que controle emocional é uma característica fundamental associada a liderança.


Curioso, vejam que estamos falando do fenômeno dois pesos, duas medidas (double standards): pois homens expressam (e muito!) emoção ou descontrole emocional, mas nos homens em geral essas características são atribuídas a fatores externos e não a traços de personalidade. Além disso procura-se ativamente nas mulheres esses aspectos emocionais mesmo quando não há nenhum indício de que tenha havido expressão ou participação do descontrole emocional em uma ou outra decisão: “Too Nice” “Bossy” “Emotional” (as barreiras ocultas na ascensão de carreira feminina, Harvard Business Review)

Cresce um movimento global chamando a atenção para esses vieses subconscientes e formas de abordá-los de forma precisa e eficiente. Convido a todos com senso de justiça presente que juntem suas vozes a essa causa. A hora é agora.


Declaração de conflitos de interesse: esse projeto é dedicado a minha filha e todas as meninas que vem formando essa nova geração de mulheres.


As opiniões aqui veiculadas representam minha posição pessoal.


Projeto Respira Evidência por Leticia Kawano Dourado




© 2019 by Leticia Kawano-Dourado

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