• Letícia Kawano-Dourado

Pequenas ameaças? Alumínio

Quão preocupante é o alumínio ? Um pouco de olhar científico sobre as evidências disponíveis


Na parte 1 abordei o risco dos PFAs presentes em anti-aderentes e impermeabilizantes. Na parte 3 o risco de agrotóxicos e na parte 4 o risco dos protetores solares!




Esse é um post diferente, um pouco de método científico aplicado para consumo próprio, eu diria rs. Desde que tive filhos, passei a consumir com mais curiosidade a literatura científica nutricional (um problema em si!) e a literatura de riscos ambientais. Sempre com a perspectiva do olhar científico sobre a qualidade da evidência disponível para embasar minhas decisões domésticas de reduzir ou não o uso/consumo de determinados produtos. Resolvi então fazer esse post para compartilhar minhas reflexões.



Alumínio: é o metal mais presente na face da terra. No consumo moderno é encontrado em latas, panelas, desodorantes (anti-bacteriano), anti-ácidos, cosméticos, adjuvante em vacinas etc. O alumínio entra no corpo pela via digestiva (anti-ácidos, AAS tamponado, cozinhar em panelas de alumínio), inalado (desodorantes que contenham alumínio) e minimamente pela pele e é excretado pelas fezes e urina (preocupação nos pacientes com função renal alterada)


A maior preocupação atual com a exposição ao alumínio é o risco de Alzheimer e câncer de mama e são esses dois assuntos que irei abordar nesse artigo. Não entrarei na questão do alumínio como adjuvante de vacinas: merece outro post sobre assunto tendo em vista as falácias várias em que caem os membros de grupos anti-vacina.



Níveis elevados de alumínio foram encontrados em cérebros de pacientes com a demência de Alzheimer. O alumínio é um metal neurotóxico e pessoas expostas ao alumínio podem desenvolver sinais de neurotoxicidade. No entanto a relação causal entre alumínio e Alzheimer não é inequívoca dando espaço para questionamentos na comunidade científica. Há os que advoguem que há uma relação causal presente entre alumínio e Alzheimer, baseado em plausibilidade biológica, dados epidemiológicos (fracos) e estudos experimentais e há quem questione a associação.


Em relação ao câncer de mama, o nível de evidência é da mesma ordem: há plausibilidade biológica de que o alumínio presente em desodorantes possa ser um carcinógeno de baixa potência (mas se associado a outros fatores, acabe por culminar em doença clínica) e as evidências são:

1. o alumínio funciona como um análogo do estrogênio no tecido mamário, chamado inclusive de metaloestrogênio

2. o alumínio presente no desodorante é absorvido (veja aqui também)

3. Há evidência de instabilidade genética nos quadrantes superiores externos das mamas, local de maior contato com produtos aplicados na axila.

4. o alumínio tem potencial de instabilidade genética e epigenética a partir de experimentos de bancada.



Diante das evidências experimentais e epidemiológicas de que o alumínio possa de fato ser um fator de risco para o desenvolvimento de Alzheimer e câncer de mama e tendo em vista que evitar o excesso de alumínio consumível demanda medidas relativamente simples, sou a favor da posição "na dúvida pró-reu".

Formas de reduzir a absorção de alumínio:

1. Evitando a ingesta de medicamentos com alumínio como anti-ácidos, laxantes, remédios à base de alumínio

2. Evitando o uso de panelas de alumínio (as panelas mais estáveis são as de aço-inox e aço-carbono)

3. Evitando o uso de desodorantes com alumínio. Note nos ingredientes se o desodorante tem alumínio. PS: O alumínio torna o desodorante mais potente e por isso é usado.


Reitero que não há evidência definitiva sobre o risco do alumínio em causar Alzheimer ou câncer de mama. Há apenas plausibilidade biológica e pouca evidência epidemiológica. No entanto tendo em vista a facilidade de reduzir a exposição ao alumínio - dentro do que é controlável - opto por fazê-lo até evidências mais definitivas sairem.

PS: Sobre as vacinas contendo alumínio: a quantidade é tão pequena e a exposição tão episódica na vida de uma pessoa, que não há porque evitarmos as vacinas por conta do alumínio contido nela. Posso fazer um post específico sobre isso porque há vários argumentos falaciosos dos grupos anti-vacinas que precisariam ser abordados e não o farei aqui para não tornar esse post longo demais.


Resumo da ópera: Lembrem que quando se fala de segurança, o limite para a ação é mais tênue do que quando se fala de eficácia. Há plausibilidade biológica que o alumínio pode ter efeito neurotóxico e pode eventualmente se associar à aceleração da doença ou mesmo o desenvolvimento do Alzheimer. Igualmente há plausibilidade biológica de que o alumínio possa predispor ao câncer de mama em pessoas predispostas.


A maioria das doenças crônico-denegerativas e neoplásicas tem uma rede de causalidade complexa, determinada por predisposição genética, alterações epigenéticas relacionadas a exposições ambientas variadas. O que podemos fazer é reduzir a exposição de potenciais fatores de risco, mesmo que ainda paire alguma dúvida sobre o papel causal deles ou que sua influência seja pequena (odds ratio baixo, difícil de detectar em estudos epidemiológicos).



Declaração de conflitos de interesse: nenhum


As opiniões aqui veiculadas representam minha posição pessoal.


Projeto Respira Evidência por Leticia Kawano Dourado




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