• Letícia Kawano-Dourado

Reduzindo o impacto dos vieses subconscientes na avaliação conceitual de mulheres

Medida simples e efetiva: mudar a escala de avaliação


Avaliações semi-quantitativas de desempenho no ambiente de trabalho ou no ambiente de treinamento (ex. residência médica / internato) sempre foram tidas como formas imparciais de avaliação de pessoas.


No entanto pesquisas recentes tem mostrado que escalas de desempenho semi-quantitativas estão longe de serem objetivas. Sim elas tornam a vida do avaliador(a) mais fácil mas são absolutamente suscetíveis a vieses de gênero. Avaliadores de ambos os sexos dão melhores conceitos a homens que a mulheres, mesmo quando as qualificações de currículo e desempenho são absolutamente idênticas.

Ao longo do tempo essas perdas conceituais minam a progressão da carreira profissional feminina, sendo um dos fatores contribuintes para a menor presença de mulheres em cargos de liderança de elite.


No entanto para a nossa alegria parece que o problema tem soluções mais simples que possamos imaginar. Recentemente pesquisadores Norte-Americanos publicaram um experimento interessante:


Na primeira fase da pesquisa científica, os pesquisadores observaram as consequências da mudança de escala na avaliação de professores (por alunos) de uma grande Universidade Norte-Americana. Por razões não relacionadas com gênero, a a Universidade trocou o sistema de avaliação de uma escala de 1 a 10 para uma escala de 1 a 6. Foram analisadas 100 mil avaliações que avaliaram 369 professores em 235 cursos. Com a troca de escala, os pesquisadores puderam comparar como foi avaliado o desempenho do mesmo professor, avaliado pelo mesmo aluno, quando a escala usada foi de 1 a 10 vs. 1 a 6.


Os pesquisadores observaram curiosamente que quando a escala de 1 a 10 era usada, professores do sexo masculino ganhavam notas maiores que professoras. No entanto quando escala de 1 a 6 era usada, esse fenômeno desaparecia por completo. Os pesquisadores ficaram intrigados e partiram para uma segunda etapa:

Os pesquisadores deram um texto idêntico para uma amostra de 400 estudantes. Ora diziam que o autor do texto era um homem, ora diziam que era uma mulher. Depois randomicamente dividiram os estudantes em 2 grupos: os que usariam a escala de 1 a 10 para avaliar o texto, e os que usariam a escala 1 a 6. Além disso foi solicitado a todos os estudantes que escrevessem as palavras que primeiro viessem à mente quando eles pensassem na performance do autor do texto (ex. incrível, ok, legal etc).


Achados principais: Os pesquisadores evidenciaram a presença de uma ampla diferença devido ao gênero quando a escala de 1 a 10 era utilizada. Alunos atribuíam com mais facilidade a nota 10 quando pensavam que o autor do texto tinha sido um homem, enquanto que notas 8 e 9 quando pensavam que o autor do texto tinha sido uma mulher. Ao analisar as palavras que primeiro vinham à mente dos alunos quando a nota 10 havia sido dada: as palavras eram "brilhante", "extraordinário", "gênio", mostrando que o número 10 tem um significado subconsciente de perfeição e "acima das expectativas" e que avaliadores esmiuçam com mais detalhes o desempenho feminino à procura de erros, motivo pelo qual as notas femininas foram boas mas não "perfeitas" (a nota 10).


Ao contrário e reforçando os achados da fase observacional do estudo, na escala de 1 a 6, a discrepância de conceito secundária a gênero desapareceu, pois para ser concedido o conceito 6 bastava ser "muito bom". Não havia a carga simbólica do número 10.

E qual o impacto desses achados?

1. Notem que os vieses subconscientes atuam mesmo com o uso de métricas que tem a intenção de ser imparciais (como escalas conceituais onde características de desempenho são quebradas em subcategorias).

2. Se queremos mudar o cenário precisamos discutir o assunto e pensar em incorporar mudanças que tornam a avaliação de fato mais objetiva! Se é capacidade laboral que se quer avaliar, então é capacidade laboral que está em jogo, e não o gênero.



Reforço: boa parte desses vieses mentais ocorrem em mentes femininas e masculinas (é cultural) e na sua maior parte de forma subconsciente. A bandeira que defende #equidadedegenero no trabalho é uma bandeira de todos os que prezam por justiça em sociedade, ou seja é um assunto de Homens e Mulheres "conectados", não só de mulheres! Lembrem-se uma sociedade baseada em justiça é uma sociedade que é segura para todos pois hoje estamos em posição privilegiada, amanhã podemos não estar mais, e ter uma sociedade justa garante segurança para todos no convívio comum.



Projeto Respira Evidência por Leticia Kawano Dourado


Declaração de conflitos de interesse: sou #maedemenina #MaeeMedica e estou aqui no modo "Leoa-on" agindo por um mundo melhor para minha filha e filho (ele também merece uma sociedade mais justa!) e por toda essa geração que está por vir.


As opiniões aqui veiculadas representam minha posição pessoal.


© 2019 by Leticia Kawano-Dourado

Icone LK.png