• Letícia Kawano-Dourado

Remuneração do pesquisador: uma questão de justiça social

A pesquisa que utiliza uma força de trabalho mal remunerada (ou pior, não-remunerada) cria um cenário de injustiça social tornando-a acessível apenas àqueles que tem privilégios


Post de novembro de 2022


Início de 2020, pesquisadora em campo: coletando dados para os estudos da COALIZÃO BRASIL COVID-19 no HCOR em São Paulo
Se queremos no Brasil uma ciência mais justa e mais inclusiva, precisamos discutir a remuneração do trabalho do pesquisador

Sabe aquele modelo de pesquisa tão comum nas Universidades que não remunera por pesquisa mas conta que as pessoas trabalhem em pesquisa dentro de suas respectivas cargas horárias assistêncial ou de formação*? (*ex. durante a residência ou pós graduação)


Esse modelo é profundamente injusto porque favorece enormemente aqueles que podem se dar ao luxo de ter períodos livres para serem ocupados por atividades não-remuneradas. É a pesquisa como "hobby"

Naturalmente, esse modelo favorece pessoas privilegiadas. Esse privilégio pode ser desde uma hora de trabalho mais bem remunerada, até privilégios relacionados com a sorte de ter nascido bem (e que em nada tem a ver com mérito). Para mais sobre mérito, sugiro fortemente o livro do Prof. Michael Sandel da Harvard: A Tirania do Mérito




O curioso é que nas Universidades públicas ainda permanece valorizado o "pesquisador-sacerdote". E a falta de financiamento adequado para o pesquisador é vista positivamente como um elemento "selecionador" daqueles que tem "verdadeiramente vocação para pesquisa".


Bom, esse não é só um conceito falso como perpetuador de injustiças sociais.


Pior, como os postos de liderança nas Universidades públicas Brasileiras são na sua maioria ocupados por pessoas socialmente privilegiadas, é natural que estas em geral não estejam cientes de todas essas complexidades (a menos que tivessem sido expostas a reflexões do gênero, o que infelizmente não ocorre na maioria esmagadora Faculdade de Medicina). A oportunidade para mudança é ainda mais difícil porque, para alguns privilegiados, as dicussões sobre justiça e equidade social soam ameaçadoras: elas implicam em perda de privilégios.




Por falar em dinheiro, vamos dar uma olhada nos valores das bolsas de pesquisa? Segue abaixo um printscreen de novembro de 2022 referente às bolsas do cnpq (as outras agências públicas de fomento seguem a mesma faixa de preço), vejam os valores:



Todas as vezes que vejo esses valores, eu fico me perguntando se é uma piada de mal gosto para espantar as pessoas, ou se é só"para inglês ver". Não creio que as agências de fomento realmente achem que alguém pode ter dedicação exclusiva à pesquisa vivendo com esses valores

Resumo da ópera: Vejo a pesquisa das Universidades públicas no Brasil em uma enorme crise composta por vários elementos sendo um deles essa cultura tóxica de pesquisa-sacerdócio e a própria falta de recurso em si.


Para aqueles curiosos sobre a minha trajetória de médica à pesquisadora profissional, vejam o post aqui.



Conflitos de Interesse:

Trabalho para o IP-HCOR em Sao Paulo, e para a MAGIC Evidence Ecosystem na Noruega, e ADORO, ambas organizações de pesquisa privadas sem fins lucrativos.

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Vamos em frente!