• Letícia Kawano-Dourado

Voz de homem, por favor!

A intrigante preferência pela voz masculina e as avaliações negativas que vozes femininas recebem em conferências, aulas gravadas e podcasts




Confesso para vocês que ao ler sobre esse assunto eu fiquei de início meio incrédula. Nunca havia pensado que pudesse haver vieses implícitos permeando avaliação do tom de voz feminino (ingenuidade minha?).


Pois é, mas há. Vamos lá às evidências: Dra. Shreya Trivedi, produtora de podcasts médicos, compartilhou recentemente a diferença de feedbacks que recebe quando entrevista mulheres vs homens. Ela nunca recebeu um feedback negativo em relação às vozes masculinas entrevistadas, mas às vozes femininas, frequentemente os recebe:

"Ela soa auto-suficiente demais"

"Ela não tem aquela voz acolhedora"


E não ocorre apenas com a Sherya em seu podcast. Se qualquer um se debruça por 10 minutos sobre o assunto encontra uma vasta literatura sobre o problema. Por exemplo uma produção da NPR de 2015 que teve uma mulher como host do podcast recebeu uma crítica super depreciativa: "soa como uma falsa socialite" (oi?). Igualmente o podcast The 99% invisible criou uma pasta chamada "prioridade zero" para arquivar emails que se queixavam das vozes femininas que apareciam no programa.


E a pergunta é: porque socialmente a voz masculina é mais aceita que a voz feminina? Seria porque os cargos de liderança são ocupados na sua maioria por homens e portanto vemos a voz masculina como uma voz com maior propriedade para fala pública?



Como desencadear uma mudança de impacto significativo nisso que é claramente subconsciente: a aversão à voz feminina? Como nós mulheres podemos utilizar nossa voz de forma segura e confiante a despeito das críticas?


Essa questão do preconceito quanto à voz feminina é apenas a ponta do iceberg da complexidade do desequilíbrio de poder com base em gênero. Enquanto as mulheres permanecerem à margem das posições de poder, é difícil antever alguma mudança. Desse modo, aumentando a proporção de vozes femininas com poder (a serem admiradas?) pode ser um passo em direção à mudança. E aqui o assunto se interconecta com a discussão sobre painéis científicos compostos apenas por homens (os manels). Os manels em geral reproduzem a lógica de preponderância do gênero masculino pelo simples fato de ser masculino e não por mérito, tirando a oportunidade de visibilidade de mulheres que são tão competentes quanto mas são preteridas de participar do painel porque são mulheres.


Enquanto não mudamos o desequilíbrio de poder entre gêneros para uma estrutura mais justa, só o fato de trazermos à consciência a existência da aversão à voz feminina estamos dando um primeiro passo para melhorarmos esse fenômeno.



Declaração de conflitos de interesse: tenho uma filha pequena, esse projeto é dedicado a ela.


As opiniões aqui veiculadas representam minha posição pessoal.


Projeto Respira Evidência por Leticia Kawano Dourado




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