• Letícia Kawano-Dourado

Equidade de gênero em Doenças Pulmonares Intersticiais

e que reflete bem várias áreas da Medicina.


Publicamos esse mês de Julho no Journal Lancet Respiratory Medicine uma carta sobre os problemas em equidade de gênero na área da pneumologia, mais especificamente na área de Doenças Intersticiais Pulmonares, uma área que testemunhou grandes avanços do ponto de vista de tratamento da fibrose pulmonar, mas que não avançou no mesmo ritmo em termos de justiça social (equidade de gênero)


Revisamos os principais manuscritos da nossa área nos últimos 10 anos:

Por principal elegemos as diretrizes das sociedades norte-americana e europeia da area de doenças intersticiais e os principais ensaios clínicos randomizados que mudaram a prática clínica da nossa especialidade.


Porque nos restringimos aos principais manuscritos da nossa área?

Por que essas são publicações em que a participação de autores e co-autores acontece por indicação, um marcador de poder e de boas redes de relacionamento (network)


O que encontramos?

Mulheres eram uma proporção pequena de co-autoras desses manuscritos e estavam praticamente ausentes das posições de liderança.

Nos ensaios clínicos randomizados patrocinados pela indústria, foi interessante de observar que não infrequente o protocolo era desenhado por mulheres funcionárias da industria mas na hora de escolher representantes da Academia para integrar o comitê do estudo, essas mulheres escolhiam basicamente homens, refletindo um viés subconsciente comum de que competência e capacidade de liderança são atribuições naturalmente masculinas.



Em publicações onde a autoria ocorre mediante indicação, mulheres estão subrepresentadas. Se olhamos para posicões de liderança dessas publicações, como as posições de primeiro autor ou autor senior, ou Chair ou co-chair, as mulheres são praticamente ausentes.

Essa ausência de mulheres em posições de liderança, apesar de mulheres estarem presentes nessa área de atuação, mostra como as estruturas de poder tendem a se manter nos grupos que já detinham esse poder (status quo) e nada mais natural e de menor gasto energético do que começar a próxima diretriz tendo como participantes, os participantes da última diretriz, e como líderes do projeto, os últimos líderes etc



Se queremos mudança, o que precisamos fazer?

Sair da zona de conforto. A exclusão de mulheres de projetos como os explicitados na tabela acima não ocorre por intenção de excluir mas apenas por comodismo de manter as estruturas como estão, trabalhar com quem já trabalhamos antes, o que é compreensível.

Por outro lado se o objetivo é uma sociedade médica mais justa, é preciso um passo a mais, um esforço a mais por diversidade com inclusividade.


E porque queremos uma sociedade médica mais justa?

1. Por que a medicina lida com problemas complexos e um time diverso (com inclusividade) é um time com mais capacidade criativa e de soluções de problemas.

2. Por que uma sociedade médica mais diversa representa melhor a população que ela cuida e será capaz de pensar em diretrizes que acomodem interesses de diversos grupos de pacientes


Declaração de conflitos de interesse: nenhum


As opiniões aqui veiculadas representam minha posição pessoal.


Eu e Dra. Johannson em Dalas, 2019, no último congresso Norte-Americano de Tórax (ATS)


Projeto Respira Evidência por Leticia Kawano Dourado




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