• Letícia Kawano-Dourado

Como navegar o mundo profissional numa cultura de vieses subconscientes contra a mulher

Compartilhando algumas reflexões acumuladas


Os vieses subconscientes que dificultam a ascensão profissional feminina estão aí na mente de todos. Prova recente da sua universalidade veio na forma de um enigma que circulou na internet e intrigou muitos. No enigma se contava: "Pai e filho sofrem um acidente. Alguém chama a ambulância mas o pai não resiste e morre no local. O filho é levado para o Hospital e ao dar entrada no centro cirúrgico, a pessoa mais competente do centro cirúrgico diz: "não posso operá-lo! Ele é meu filho". Vocês lembram?



Esse enigma só foi um enigma por que contou com a ação das construções culturais conceituais sobre gênero. Essas construções conceituais são as características psico-sociais que esperamos (como sociedade) do gênero feminino e do gênero masculino [1]. Várias pesquisas científicas mostram que de forma bem universalizada, espera-se do feminino ideal características como gentil, afetiva, acolhedora e do masculino forte auto-confiança, firmeza, auto-suficiência, dominância, ambição e controle [1]. Dentro dessa construção conceitual notem que fica inimaginável que a pessoa mais competente do centro cirúrgico seja a mãe.


Para além de criar o enigma, essas expectativas a respeito do gênero dificultam e muito a ascensão profissional de mulheres pois as características necessárias para crescer profissionalmente e eventualmente pleitear um cargo de liderança de elite são atribuídas ao gênero masculino e quando apresentadas em mulheres simplesmente "caem mal" porque se chocam com as expectativas que temos delas e a dissonância soa como "errado", inadequado.


Nesse contexto, vamos entendendo porque mulheres com perfis de liderança são tão frequentemente adjetivadas em seu ambiente profissional como "agressivas", "mandonas", "difíceis/loucas"

Então primeira coisa, caso você tenha sido adjetivada conforme acima, faça um exame de consciência sincero. Você de fato passou do ponto? Perdeu a paciência? Foi energética e talvez demais da conta? Se você sinceramente acha que sim, reconcilie-se com a situação/pessoas para o seu bem e do ambiente em que você se encontra e isso não é algo particular ao gênero feminino, homens também estão sujeitos a essas humanidades. Mas, se você não vê excesso seu, e na verdade percebe dois pesos/duas medidas para os gêneros no seu local de trabalho, então vamos lá às dicas:


1. retire um tempo para, no seu íntimo, você não comprar essas adjetivações depreciativas. Elas não te pertencem, não há nada de errado com você. Não há nada de errado com você!

2. vieses subconscientes e cultura se intersectam, sugiro sair do modo "procura-se um culpado". Esse é um fenômeno que transcende o indivíduo e na verdade expressa uma cultura. Não há culpados.

3. apesar de não haver culpados, queremos mudar isso ou ao menos navegar essa realidade da melhor forma possível, para isso sugiro:

A. Se há espaço psíquico nas pessoas com quem voce convive para sugerir mudanças, então mãos à obra, para muitos é só uma questão de se dar conta para passar a ficar mais atento e cuidar mais para não incorrer nessas injustiças com as mulheres.

B. Não, o ambiente é extremamente conservador e os vieses subconscientes são experimentados pela maioria até com certo prazer. Bom, daí nessa situação é preciso um movimento de xadrez: veja se você quer mesmo ficar nesse ambiente, saiba que voce terá muitas poucas chances de crescer nem mesmo se fizer 130% mas pode ser que a balança pese para que se permaneça, se assim for, lembre-se que você joga com os vieses subconscientes presentes e portanto lembre-se dentro do possível de atender as expectativas de gênero - isso vai te ajudar a ser bem avaliada. Para ganhar mais know-how sobre esses papéis de gênero sugiro ler a referencia aqui citada [1].


1. Eagly A, Karau SJ. Role Congruity Theory of Prejudice Toward Female Leaders. Psychological Review, 2002: 573 - 598.


As opiniões aqui veiculadas representam minha posição pessoal.


Declaração de conflitos de interesse: nenhum


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